9.24.2015

cartas de Bukowski

December 8th 1986

Hello John:

Thanks for the good letter. I don’t think it hurts, sometimes, to remember where you came from. You know the places where I came from. Even the people who try to write about that or make films about it, they don’t get it right. They call it “9 to 5.” It’s never 9 to 5, there’s no free lunch break at those places, in fact, at many of them in order to keep your job you don’t take lunch. Then there’s OVERTIME and the books never seem to get the overtime right and if you complain about that, there’s another sucker to take your place.

You know my old saying, “Slavery was never abolished, it was only extended to include all the colors.”

And what hurts is the steadily diminishing humanity of those fighting to hold jobs they don’t want but fear the alternative worse. People simply empty out. They are bodies with fearful and obedient minds. The color leaves the eye. The voice becomes ugly. And the body. The hair. The fingernails. The shoes. Everything does.
As a young man I could not believe that people could give their lives over to those conditions. As an old man, I still can’t believe it. What do they do it for? Sex? TV? An automobile on monthly payments? Or children? Children who are just going to do the same things that they did?

Early on, when I was quite young and going from job to job I was foolish enough to sometimes speak to my fellow workers: “Hey, the boss can come in here at any moment and lay all of us off, just like that, don’t you realize that?”
They would just look at me. I was posing something that they didn’t want to enter their minds.
Now in industry, there are vast layoffs (steel mills dead, technical changes in other factors of the work place). They are layed off by the hundreds of thousands and their faces are stunned:

“I put in 35 years…”

“It ain’t right…”

“I don’t know what to do…”

They never pay the slaves enough so they can get free, just enough so they can stay alive and come back to work. I could see all this. Why couldn’t they? I figured the park bench was just as good or being a barfly was just as good. Why not get there first before they put me there? Why wait?
I just wrote in disgust against it all, it was a relief to get the shit out of my system. And now that I’m here, a so-called professional writer, after giving the first 50 years away, I’ve found out that there are other disgusts beyond the system.

I remember once, working as a packer in this lighting fixture company, one of the packers suddenly said: “I’ll never be free!”
One of the bosses was walking by (his name was Morrie) and he let out this delicious cackle of a laugh, enjoying the fact that this fellow was trapped for life.

So, the luck I finally had in getting out of those places, no matter how long it took, has given me a kind of joy, the jolly joy of the miracle. I now write from an old mind and an old body, long beyond the time when most men would ever think of continuing such a thing, but since I started so late I owe it to myself to continue, and when the words begin to falter and I must be helped up stairways and I can no longer tell a bluebird from a paperclip, I still feel that something in me is going to remember (no matter how far I’m gone) how I’ve come through the murder and the mess and the moil, to at least a generous way to die.
To not to have entirely wasted one’s life seems to be a worthy accomplishment, if only for myself.

your boy,

Hank

De Charles Bukowski para John Martin.
Trinta anos depois... a escravidão permanece.


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9.23.2015

os telhados de Praga

Os telhados de Praga ou de Pequim, os telhados de Lisboa ou de Colombo, os telhados de Sidney ou de Varsóvia. Os telhados de vidro, são tantos os telhados  de vidro, os meus, os teus, os nossos. Tão finos, tão ténues, tão quebráveis.


Praga, 2013.


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9.22.2015

olfacto, para que te quero

Cheira a vento e a maresia, cheira a pôr do sol e a lua cheia, cheira a beijos salgados e a cabelos molhados, cheira acasos e a desencontros, cheira a almofadas frescas e a lençóis espalhados, cheira a conversas de meia-noite e a abraços de quarto minguante. Cheira ti, ainda cheira demasiado a ti.
 
 
Siracusa, 2013.


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9.20.2015

o dia em que começaste a morrer

"Morremos quando não há mais ninguém por quem tenhamos vontade de viver. Suponho que foi o que aconteceu contigo. Começaste a morrer no dia em que pela primeira vez quiseste matar-me, no teu coração. E morreste literalmente quando, por fim, percebeste que tinhas matado a última pessoa por quem tinhas tido vontade de viver. Foi o que quiseste que eu soubesse quando já nada havia a fazer, a não ser aceitar o inevitável, não foi? E é precisamente isso que mais me dói, agora. Sabê-lo e não poder reverter a situação. Sabê-lo e não poder ir ao teu encontro, para recomeçarmos do ponto onde ficamos, independentemente do desfecho final. Para te dizer que errámos os dois quando tu me voltaste as costas, sem uma explicação e eu, cansada de sentir o teu desprendimento, desisti, quando o nosso desafio era, precisamente, encararmo-nos de frente, abrirmo-nos ao poder curativo do amor. Creio que o teu erro, desde o início, foi gerar a expectativa de que eu te salvaria da sensação de vazio provocada por esse enorme buraco negro que carregavas. E que o meu erro foi desvalorizá-lo, acreditando que te poderia salvar, sem que eu própria fosse, por ele, tragada. O tal buraco negro de que me preveniste, assim que me conheceste. Tinhas plena consciência da sua existência e do seu perigo. Costumavas intitular-te de Não-Ser, numa alusão à tua não existência enquanto Ser. Creio que nunca te levei verdadeiramente a sério, nem mesmo quando tudo à nossa volta parecia desmoronar, sugado por essa energia estranha que te corroía a alma. A tua forte personalidade, a tua presença de espírito e a profundidade das nossas conversas eram mais do que suficientes para que eu refutasse essa ideia, acreditando ter provas do contrário. Erro meu que, levada pelas minhas expectativas e pelo teu sedutor e brilhante lado luminoso, apenas quis ver o que me interessava ver e descuidei os pequenos sinais que ias revelando. Efectivamente tinhas a consciência de que não eras senão uma sombra do que querias ser, um sorvedouro da vida e das energias que desejavas. E o que era isso, afinal, senão uma pseudo-existência? Uma existência dissoluta, contrária à verdadeira existência? Interrogo-me, agora, sobre onde poderíamos ter chegado se não tivesse ignorado os teus sinais… Quando partiste senti-me magoada, defraudada, profundamente ferida e concluí que, realmente, não passavas de uma ilusão de óptica, uma espécie de armadilha, por detrás da qual ocultavas o tal buraco negro para onde, por uma espécie de atracão fatal, me havias conduzido. O desnorte, a raiva, o despeito de me sentir abandonada e traída nas minhas certezas, falaram mais alto. No momento não me era possível fazer outra análise. Não via o teu sofrimento. Não sentia o teu desaire por perceberes que, afinal, nada, nem ninguém (nem mesmo eu) te poderia salvar da escuridão que te consumia por dentro. Caíam por terra as tuas ilusões de resgate. Afastavas-te, porque morrias à míngua de qualquer coisa. Qualquer coisa, enorme, funda, sem nome. Qualquer coisa que não te deixava fazer as pazes contigo nem com a vida. Tal como chegaste, partias para outros lugares, em busca de outros ares, de outras emoções, de outros amores, que te prendessem e enraizassem, que te fizessem esquecer aquilo de que fugias. Só não sabias era que amor nenhum, nenhures, te poderia salvar de ti mesmo, da tua falta de amor-próprio, dos muros de culpa e de silêncio de que te cercavas, dessa secura que te agastava, torturava e deixava à morte. Porque amor nenhum tem o poder que lhe negamos. Amor nenhum pode salvar quem se trata, a si próprio, como um condenado..."

 por Maria José Martins



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9.18.2015

aquele inverno

Lembro-me daquele inverno que em que o coração estava sereno e o peso do mundo era tão leve como um sopro de dente-de-leão. Lembro-me daquele inverno e de pensar que os meus olhos poisaram em tantas coisas bonitas, puras e simples. Depois vieram as tuas mãos, e aquele inverno não passou de uma miragem, vieram as tuas mãos e os meus meus olhos poisaram finalmente nas coisas mais bonitas, mais puras e simples.
Ainda me lembro daquele inverno, fecho os olhos e vejo ainda melhor as tuas mãos.



Schönbrunn, Viena. 2014

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8.29.2015

para sul

Desconfio que todo e qualquer sul cura males, previne constipações e aquece corações. Deve ser o sol. Ou o azul do mar. Deve ser o sol e o azul do mar, o ritmo compassado do tempo que desfila lentamente. 
Rumo a norte outra vez, com o coração cheio de sol e de azul, a magicar qual será o próximo sul.

E rimei!


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8.19.2015

Era uma vez Bruges

O relógio parou em Bruges, a única prova de que o tempo avançou são os milhares de smartphones a disparar sem sentido em todas as direcções.
Sem querer descurar tudo o que podemos ver em Bruges, as casinhas bonitas, os canais imaculados, as janelas deliciosas, as portas fotogénicas, os cantos e os recantos acolhedores ou tudo o que o turista das obrigatoriedades, exercendo o seu dever em relação ao turismo anseia, a cerveja meus senhores, a cerveja é boa que dói. Provem as milhentas cervejas que podem provar, sentem-se numa esplanada ou numa tasca com três mesas, conversem com um estranho e sorriam muito. A Bélgica vai ser boa para vocês.
E os cocheiros, esses, também são bons para qualquer vista cansada.


Ir, ir, ir
sempre foi o melhor remédio.


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8.12.2015

a suavidade da indiferença

A suavidade da indiferença. Li isto algures, não me recordo onde ou o sentido da frase, assumo que havia uma frase- Há sempre uma frase. A suavidade da indiferença. A brandura do desprezo. A melodia da apatia. Quem disse que as palavras bonitas não fazem mal ao coração enganou-se redondamente. A suavidade da indiferença faz mal ao coração, gela almas, arrepia espinhas. A indiferença suave e instalada, a que vem para ficar mas que chegou sem avisar. A suavidade da indiferença repentina, talvez seja assim. Como os cortes de papel dos dedos, fininhos, suaves, dolorosos, persistentes e que nunca se sabe como aconteceram. São os piores. A indiferença fininha, dolorosa, persistente e suave, tão suave. É a pior.



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8.10.2015

Harvest Moon

Três fotografias completamente aleatórias acabadas de sair do meu jardim. A hera cá de casa, uma das muitas flores que nascem aqui ao pé de mim, a árvore do vizinho. O fim da tarde, sempre o fim da tarde. Sem qualquer propósito de retratar um momento especial, este é um momento como outro qualquer desprovido de grandes emoções ou extrema importância. Mas neste exacto momento, o Neil Young toca Harvest Moon e pareceu-me, por breves instantes, que a paz reinava no meu jardim. Talvez em mim. Ou talvez ainda não.

Ainda não.


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Acerca de mim

A minha foto
O meu nome não é Rita Laranja. E gosto de tirar fotografias. amidnightinbuenosaires@gmail.com