12.11.2015

a repetição, o amor e a arte

"-Todos os bons chapéus são feitos do nada.
-Como todas as boas reputações, Gladys - interrompeu Lord Henry. -Todo o efeito que produzimos dá-nos um inimigo. Para termos popularidade temos de ser medíocres.
-Isso não acontece com as mulheres. -disse a duquesa, abanando a cabeça; -e as mulheres governam o mundo. Garanto-lhe que não suportamos mediocridade. Nós, as mulheres, como diz alguém, amamos com os ouvidos, do mesmo modo que vocês homens amam com os olhos, se é que amam mesmo.
-Parece-me que nunca fazemos outra coisa. -murmurou Dorian.
-Ah, nesse caso, realmente nunca amam, Mr. Gray. - respondeu a duquesa, num arremesso de mágoa.
-Minha querida, Gladys! - exclamou Lord Henry - Como pode dizer isso? Um romance de amor vive da repetição e a repetição converte o apetite em arte. Além disso, cada vez que se ama é a única vez que já se amou. A diferença no objecto do amor não altera a integridade da paixão, só lhe dá mais intensidade. Na melhor das hipóteses, podemos ter na vida apenas uma experiência magnifica, e o segredo está em reproduzir essa experiência tantas vezes quanto possível.
-Mesmo quando ela nos magoou? - perguntou a duquesa, após algum silêncio.
-Especialmente quando nos magoou. - respondeu Lord Henry."


Oscar Wilde
in Retrato de Dorian Gray


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...e apetece-me traçar linhas tortas no céu, repetidamente.

1 comentário:

  1. Um dos livros mais especiais que li. Excelente partilha de excerto! ;)
    (esqueceste-te de um "E" em Wilde! ;))

    http://sapo24.blogs.sapo.pt/banksy-poe-steve-jobs-num-campo-de-33004

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O meu nome não é Rita Laranja. E gosto de tirar fotografias. amidnightinbuenosaires@gmail.com