7.14.2015

carta aberta ao desapego

desapego | s. m.
1ª pess. sing. pres. ind. de desapegar

de·sa·pe·go |ê|

substantivo masculino

1. Facilidade em deixar aquilo a que se tinha apego.
2. Indiferença, desinteresse.



Desapego. Desapego. Desapego.
Ainda não chegou o outono e tenho andado a pensar no desapego. Falo no desapego. Falo no desapego como falo de amor. Como se o desapego e o amor fossem duas flores do mesmo caule, da mesma raiz, da mesma terra.
As flores do mesmo caule podem não ser detalhadamente iguais, podem não ter as pétalas igualmente perfeitas, pode até, uma ser mais forte do que a outra. Mas as flores do mesmo caule têm a mesma raiz, o mesmo vaivém de vida, o mesmo nome. Flores do mesmo caule, é assim que decido chamar-lhes. Ou hortênsias, hoje apaixonei-me por hortênsias.
Não, o desapego e o amor não coabitam, não bebem a mesma água, não apanham o mesmo sol de primavera nem aquela chuva miudinha de início de outono.
O amor é uma coisa. O desapego é outra, a muitos caules de distância.
O despego é desamor. O desapego é desafeição. O desapego é fácil. O desapego é a concha mais feia de uma praia deserta de amor, é o abrigo do desabrigo. O desapego é cobarde, o desapego é desinteressante.
O desapego nunca, em tempo algum, pode fazer parte do amor. Não do meu, não dos vossos.
Uma vez uma amiga do coração disse-me Rita, é a saudade que move o amor. Acredito nisto.
Não tenho medo da saudade. O desapego gela-me a alma. Mil dias de saudades, a um segundo desse desapego fácil e indiferente àquilo que um dia foi o nosso regaço.
Seja pelo que for. Pelo facilitismo ou por parecer um lugar mais seguro e confortável do que a saudade, o desapego não, por favor.
Se o amor é para ser, então que seja com tudo. Com os dias feios, as palavras menos bonitas, as horas desencontradas, as saudades infinitas, os quilómetros que mais parecem fitas métricas a apertarem-me o peito, a chuva, a trovoada. Pode até ser com neve, ninguém disse que o amor era fácil.
Acredito no amor como uma perfeita imperfeição. Sublinho imperfeição, porque nada neste mundo é perfeito.Talvez as hortênsias brancas sejam perfeitas, parecem-me perfeitas daqui. Ou talvez não, talvez nem as hortênsias sejam perfeitas, quem sabe se as perfeitas imperfeições não fazem delas ainda mais bonitas. Isso é outra história, uma história de hortênsias, não uma história de amor.
As histórias de amor não se escrevem com desapego. Talvez com hortênsias brancas perfeitamente imperfeitas.
Aposto nisso. E eu nunca resisto a uma boa aposta.



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