2.16.2014

do que restou

Um monte de coisas sem interesse, para mim, para nós, para vocês, um monte de lixo como dizem, um monte de pó, um monte não é bonito, um monte não é amigo da concordância, um monte, se dissermos muitas vezes um monte soa estranho. Um monte, um monte, um monte, ummonte, umonte, umonte, umonte.
Mas foi exactamente isso que encontrei. Um monte de coisas, não sem interesse nem tão pouco lixo é o que devo utilizar. Encontrei um monte de velharias, isso sim, um monte de velharias maravilhosas cheias de histórias, cheias de pessoas, cheias de memórias.
A casa estava fechada, também ela tão velha como o tempo, mas eu lembrava-me. Lembrava-me daquela cozinha, lembrava-me das bolachas de canela cobertas de açucar, lembrava-me da lareira aberta, lembrava-me do sol a curtir a varanda.
Pouco ou nada restou, umas quantas cartas de África, registos de uma identidade há muito perdida, uma caixa de fotografias de outros tempos, alguns livros que se recusaram a cair, os lençóis de linho delicadamente guardados. Já nada é nosso, este lugar já não nos pertence, fechámos a porta atrás de nós e dissemos até sempre. Despojámos o passado sem pudor, o que foi não volta a ser é o que dizem por aí. Mas eu, eu serei uma eterna saudosista, terei sempre saudades dos outros tempos, mesmo que não voltem a ser esses tempos eu terei sempre saudades. Bem ou mal, certo ou errado, os meus despojos do passado serão, para sempre, tão especiais como aquelas bolachas de canela.
Fechamos a porta, fechamos corações, até sempre. Até sempre.




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